
Se verdade ou invenção
Não me cabe louvação
Como os pobres cantadores
Sem muitos outros pendores
Passo a história pra frente
Cumprindo a minha missão
Sabará tinha tesouro
E pra cá muitos vieram
Brancos em busca de ouro
Negros a fogo trouxeram
Os negros aqui malditos
Tem seu sangue escorrido.
Contam velhos sabarenses
Que da casa de Sophia
Um casal fez moradia
E ficaram na história
Pela imensa antipatia.
O casal era servido
Por uma negra bonita
Dentes belos, luzidios
Paciência infinita
Seu jeito todo polido
Deixava a dona aflita.
A negra trabalhadeira
De sorriso em cascata
Tinha semblante perfeito
Orgulho do escravocrata
Não sabia que o futuro
Doloroso já chegava.
A dona enciumada
Infeliz e apaixonada
Grande maldade sonhou
Com seu sangue frio incrível
Um plano arquitetou.
Diz o dito popular:
Diabo sempre atenta
Pra senhora se vingar
E a negra se amargar
Deu a chance como prenda.
A negócios imprevistos
Seu marido viajou
O momento tão sonhado
Por ela tão desejado
Finalmente chegou.
Pro pé da escada arrastada
Aí bem atada
A negra assim ficou
E um por um cada dente
Da escrava a dona arrancou.
Na noite longa e fria
Presa a escada maldita
A negra em sangue esvaia
A sua pobre fantasia
Aos poucos se diluía.
Logo a negra se foi
A dona muito viveu
A paz por ela buscada
Com a morte da escrava
Pra sempre se perdeu.
A casa de Sophia
A biblioteca abriga
E onde a negra sofria
Hoje não há mais briga
Mas a escrava torturada
Pela casa ainda vaga.
São ouvidos seus gemidos
E passos pela escada
Não deixando que esqueçamos
Daqueles tempos já idos
Porém, jamais esquecidos.
Existe ou não outro mundo?
É dicussão que não abro
Não mexo em assunto profundo
Mas tenho na mente a imagem
Da dama e seu crime macrabro. |